Edição Atual

v. 1 n. 4 (2019): Edição Regular

Editorial

A indústria 4.0 e os profissionais do futuro de que precisamos hoje

“No Brasil, até o passado é incerto”. A frase, antológica, ora atribuída a Pedro Malan ora a Gustavo Loyola, ressalta a dificuldade da tarefa daqueles chamados a refletir sobre o futuro, notadamente em terras tupiniquins.

A automação e sua antecessora, a mecanização, ocupam, há décadas, relevante espaço no produzir humano. Tempos Modernos talvez seja um dos primeiros filmes a tratar do tema, ainda nas fases iniciais da Revolução industrial. Recordo aqui que data de 1936! A cena de Chaplin entre engrenagens é uma crítica ao processo, mas não representa o nosso destino.

Desacelerar para a reflexão é oportunidade rara, pois esse bem precioso e escasso, chamado tempo, implora por tuítes curtos. O desafio aqui colocado, contudo, nos obrigada a um pensar cuidadoso.

O ritmo acelerado determinado pelo conjunto de transformações produtivas que denominamos “Indústria 4.0” traz consigo temores e espanto: em meio a tais emoções, seria fácil sucumbir a previsões alarmistas ou catastróficas. Sobraria espaço para o ser humano? O que dizer do futuro dos empregos?  Outros, talvez mais sabiamente, apontam que seria melhor pensar nos empregos do futuro e não no futuro dos empregos.

A razão maior da perplexidade que hoje nos toma talvez seja o fato de que Inteligência Artificial e Machine Learning, expressões outrora restritas aos filmes e séries de ficção científica, estejam se tornando commodities. Sim, isso mesmo: commodities! Cada vez mais baratas e encontradas em muitos lugares.

De modo algum tal fato deve nos aterrorizar. Como bem apontou neste contexto Devin Fidler, Diretor de Pesquisa do Instituto do Futuro, “as competências e capacidades exclusivamente humanas se tornarão cada vez mais valiosas”.

Tendo em mente tais questões e os dilemas que delas emergem, apresenta-se a pergunta natural: quais as ações e condutas necessárias diante de tal cenário?

Sugiro iniciativas pautadas em quatro pilares. Em primeiro lugar, é preciso que as políticas públicas e seus formuladores percebam que o contexto é de mar revolto, e que não podemos ficar à deriva. Devemos buscar direção e sentido apropriados, a começar pelo diálogo com o setor produtivo. Disse Shakespeare em A Tempestade: “Pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade - o que engrandece a ação”.

Também relevante é fortalecer o diálogo entre indústrias e as instituições de ciência e tecnologia (ICT). Aqui ressalto que há boas iniciativas, mas que precisam de maior escala.

É crítico considerar aspectos éticos. Permitam que, aqui, utilize uma expressão weberiana: precisamos da ética da responsabilidade. Em certo sentido, o termo transcende a ética da convicção (Kant), a ética das ações morais individuais, praticadas independentemente dos resultados a serem alcançados. Aqui o resultado importa, e muito! A ética da responsabilidade significa que o bem coletivo, da sociedade, deve prevalecer sobre o bem individual. Significa que temos que conciliar os avanços tecnológicos com suas consequências, ainda que, de início, os temores tendam a sobressair. Não se pode nem se deve frear os avanços da produtividade, mas devemos, sim, preparar a sociedade para isso.

Ressalto, por fim, os versos de Fernando Pessoa, tão necessários diante da perplexidade que facilmente vira inércia e que utilizamos na Gerência de Educação: “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”

Nesse sentido, destaco aqui as ações realizadas pelo SENAI-SP: da reformulação de currículos ao desenvolvimento de propostas ousadas para um novo curso de engenharia, ímpar no Brasil, a ser ofertado em futuro próximo em São Caetano do Sul, passando pelos investimentos preconizados por nosso Presidente e pelo Conselho, temos traçado, diuturnamente, enquanto instituição, caminhos para o futuro.

Cabe ao SENAI-SP tomar as necessárias medidas demandadas em relação ao diálogo com o setor produtivo e interinstitucional, à ética e ao agir, das quais destaco: capacitar seus instrutores e docentes, fortalecer parcerias internacionais e dialogar com a sociedade. A escola da indústria ecoa e ressignifica anseios sociais, habilitando pessoas a enfrentarem esse mar bravio.

Voltando às analogias marítimas do mar revolto e turbulento das mudanças, se a cartografia permite mapear a realidade, a educação possibilita o ultrapassar de barreiras e fronteiras. Expressões como qualificação e domínio tecnológico cada vez mais permearão o mundo. Náufragos serão aqueles que, desprovidos de boa nau, submergirão.

 

CLECIOS VINICIUS BATISTA E SILVA

Gerente de Educação –SENAI-SP

 

Publicado: 2019-08-12
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